Poesia

Ventre livre

Quando o ventre foi liberto
a mãe continuava cativa
O ventre da mulher negra
podia livrar-se dela
pois não habitava um corpo
habitava uma mulher negra

E essa mulher sem ventre,
essa não-mulher, tinha de noite pesadelos
Nos seus sonhos era uma cartola
donde o grande mago
tirava coelhinhos brancos

E essa mulher sem ventre,
essa não-mulher, tinha de noite pesadelos
Nos seus sonhos fugia, arcada
E por entre as pernas sangrava a semente
com a qual semeava a terra

Os filhos-filhos da mulher do ventre livre
cresciam na direção errada
E a mulher negra chorava o ventre que não tinha.

Poesia

A redoma

A redoma que me protegia não era de vidro
Era de carne
Escura
E viva
Ainda…

As balas não eram de borracha
As dores não alcançavam plasticidade sináptica
Mas retornavam os corpos plastificados
Como produto fabricado em massa
Pelo… (CENSURADO)

A minha redoma não se quebra
A minha redoma se curva com o peso
Dos caixões à caminho dos cemitérios

A minha redoma foi arrastada
Pendurada numa viatura
Frase que parece passiva
Por não poder-se nomear o agente
Ou por se reconhecer a nulidade desse ato

A minha redoma enverga-se
Grita, levanta, marcha
A minha redoma está cansada
E é escura
Mas está viva
Redoma de corpos negros.