Erupta

Quando a mulher era uma ilha vulcânica
ela abria as pernas e sua vulva
relaxada exalava magma

O homem era um náufrago perdido nas águas

Pelas ondas arrojado,
o homem escalou os dois montes-seios
Estupefato provou do leite salino que deles saíam
Do alto da montanha
viu o homem que a mulher não estava só:
Era um arquipélago

E o homem temeu a cordilheira superfície da mulher.

Chão de Barro

Alisando o chão de barro
Borrifando água
Para a poeira não levantar

Feijão na panela
Pretinho, como o cotidiano
Que ela tem de enfrentar

Pega a jurubeba
Mistura tudo no prato
Feijão, arroz
Ovo e farinha
Jurubeba em cima
Para amargar

Mastiga a amargura da vida
Mastiga com as lágrimas a salgar
O peito se inunda de tristeza
Engole o nó na garganta
Aprende a se conformar.

És como um poema
Versos sem rima
Cortante, duro e sem metáforas

Chegaste seca
Nua, crua
Como a vida
A aquebrantar-me o coração
Penha, penhasco profundo
Aberto pelas tuas mãos
Intrépidas
Machado e cinzel a moldar-me o corpo
Enternecido pela rigidez do teu corpo
Pedra de esmeril.

Ressurreição

Aceitei a vida
A difícil tarefa de existir
A difícil tarefa de resistir
A difícil tarefa de ter que ser a si mesma

Pedi a mim que viesse
Pedi-me, a mim mesma e a mais ninguém
Pedi que me sentasse
Aquele eu morto

E ali, diante daquilo que queria ser,
Sendo eu, toquei-me
Adentrei as minhas feridas com os meus dedos
Como um Tomé
Diante do seu Deus ressuscitado

E o que eu era, calada,
Me olhava complacente
Como somente um Deus pode sê-lo

Retornei ao meu templo,
Cega,
Como somente os fiéis sabem ser.

 

Natureza Morta

Gosto de quando me dás flores
Gosto das rosas, principalmente das vermelhas
Gosto de comtemplá-las:
Seres mortos-vivos
Ou vivos-mortos?
Estarão mortas as flores que me dás
Ou viverão ainda, desafiando a morte já induzida?

As coloco num vaso
E fico a observar o morrer lento das flores
Admirando as que se secam sem que se abram os botões

Secam sem nem ao menos apodrecerem
E eu fico confusa
Inquieta
Me toma a angústia
Porque não consigo dizer quando e se
Morrem ou vivem as flores
Que me deste.

 

Ventre livre

Quando o ventre foi liberto
a mãe continuava cativa
O ventre da mulher negra
podia livrar-se dela
pois não habitava um corpo
habitava uma mulher negra

E essa mulher sem ventre,
essa não-mulher, tinha de noite pesadelos
Nos seus sonhos era uma cartola
donde o grande mago
tirava coelhinhos brancos

E essa mulher sem ventre,
essa não-mulher, tinha de noite pesadelos
Nos seus sonhos fugia, arqueada
E por entre as pernas sangrava a semente
com a qual semeava a terra

Os filhos-filhos da mulher do ventre livre
cresciam na direção errada
E a mulher negra chorava o ventre que não tinha.

Madura

Indeiscente
quero que me colhas o fruto
antes que o pericarpo apodreça
que as tuas mãos afastem a pele fina
e a tua língua adentre a carne
úmida do suco que envolve a semente

e que ma arranques
com a pressão dos teus lábios
extasiados       banhados
pela explosão da minha semente:
samambaia fecunda.

©Aline Djokic, 2017