Poesia

Sci-Fi

Quando ela saía às ruas
Os olhares eram as luzes frias
Duma mesa imensa
Dum Instituto Médico Legal

Mãos invadiam o seu corpo:
Como você lava esse cabelo?
E de costas sobre a mesa
Ela tentava se lembrar:
Quem podia reponder a essa pergunta,
O corpo ou a mente?

Olhares-bisturis, palavras-serras
Separando, abrindo, o seu torso
Quantas vezes hoje
Lhe tinham arrancado o coração
Repousando-o na balança?

Será que eles sabiam que ela ainda estava viva?

Dois holofotes lhe cegaram os olhos
O doutor devia estar fixando o seu rosto
Pois lhe dizia:
Você é uma negrinha muito bonita.

©Aline Djokic, 2017

 

 

 

Poesia

Analogia

Gilberto sonhou
Que a senzala
Látego latente e latejante
Adentrava litigiosamente a casa-grande
Sem afeição alguma
Sem teta de ama de leite
Sem histórias de preta velha
Sem esperanças de concubinato
E alforrias
Sem capitão do mato
Para prender esse negro safado
Que botou o senhor de quatro
E bezuntando o membro ardente de banha de cheiro
O fez engolir gota por gota
Essa mentira violenta
De democracia racial.

©Aline Djokic, 2017

Poesia

O animal racional

O animal racional me encontrou nas ruas
Me olhou, pensou, logo existiu
Chegando à conclusão de que a minha existência era nula

Mediu-me de cabo a rabo
E concluiu que eu era mais rabo que caput
Que eu não caibo
Que não sou ratio

O animal racional
Diz que quer me ver
Mas só na cama
Escreve o meu nome
No lodo, na lama
Onde a água pútrida
O vem apagar

O animal racional,
Ele não me ama
O amor, ele diz,
É coisa de louca, mucama
(Coisa de gente não-sólida
E que se desfaz no ar)
Que vive de réstia,
No limbo,
A vagar.

©Aline Djokic, 2017

Histórias de acordar, Poesia

A Bela e a Fera

A Bela e a Fera. No espelho. Ela. A Bela e a Fera cobrindo aquela que era ela, a Bela. A Bela habitando a pele que era Fera. O seu Corpo-Fera. Trincado de estrias, coberto de pelos, que arrancava e renasciam, cobrindo o que era e que ela sabia que existia debaixo daquela Fera. Debaixo daquela cor marrom, debaixo daquele corpo disforme havia ela e ela sabia que era Bela. Mas aquelas mulheres lhe diziam: você já é Bela, você já é Bela! Néscias! Néscias! Quem eram elas? Quem eram elas? Não eram elas quem vivia debaixo daquela Fera. Não eram elas quem tinha que fechar os olhos para se lembrar de que era Bela. Era ela, a Bela, de quem esperavam que amasse a Fera. E ela amava… ela sabia que a Fera também era ela! Somente a Bela sabia quem por baixo da Fera era. Era por baixo da Fera que se escondia a Bela. E um dia, ou o amor bastava para as duas, para a Bela e para a Fera, ou a Fera seria Bela, ainda que Bela tivesse que fechar cada estria da Fera com pontos. Ainda que somente mais pontos lhe trouxessem curvas definidas. E a morte telógena e eterna a livrasse de vez daquela imagem terrível. Da imagem dela. No espelho. A Bela na Fera. A Fera e a Bela.

©Aline Djokic, 2017

Poesia

Autocontrole

Botox no rosto:
A cada seis meses
Depilação com cera quente:
A cada 20 dias
Retoque na raiz dos cabelos:
A cada 15 dias
Manicure:
A cada semana
Retoque da maquiagem:
De meia em meia hora
Quase não sobra tempo para controlar:
A saia
O decote
A estampa
Chamativa
O salto quebrou
Era pago à prestação
Esqueceu as chaves
Vai descer
No beco escuro

Palpitação
Palpitação
Palpitação:
A todo instante.

©Aline Djokic, 2017

Poesia

Grávida de mim

Eu, grávida de mim
Pesada, arcada, estupefata
Grávida de mim

Contando e recontando
Os dias na cartela
Eu, grávida de mim

Procurando roupas largas
Sapatos confortáveis
Para os meus pés inchados
Para os meus pés enxadas
A cavar o buraco, a cova
Onde a gravidade me enterrava

E eu grávida
Grávida
Pesada
Grávida de mim

Sentindo e re(s)sentindo as dores do parto
No quarto
No escuro
Na noite

Só e grávida
Pesando-me
Entre uma contração e outra
Entre um e outro desejo inventado

Grávida de mim
Receando os movimentos
Receando sentir-me
Imaginando-me debaixo daquela pele
Temendo-me
A mim mesma
No meu corpo…

Grávida de mim
Eu mesma
De mim
De mim
E de mais ninguém

Sentindo as dores do parto
Tardio, dolorido
Sem anestesia
Sem mãos para eu segurar
Com medos pra me assombrar
Grávida de mim

Pari-me

Rasguei as minhas entranhas
De contrações e espasmos
Chorei, temendo-me e ansiando-me
Trouxe-me ao mundo chorando
E ao me ver, acabou-se o pranto

Eu me vi nela e ela se viu em mim
Tinha-me em meus braços
Eu, dona de mim.