Histórias da Carochinha ou a Mulher e seu ombro delicado

A Modernidade já não era mais um bebê chorão, muito pelo contrário ela era uma moleca que vivia fazendo perguntas descabidas para o Homem. O Homem estava de saco cheia da filha, mas não se atrevia a perguntar para a Mulher o que ele deveria fazer. A Mulher, pensava o Homem, era como as cópias chinesas dos produtos de marca: produzida na mesma fábrica, com o mesmo material, mas sem a etiqueta correta.

Num dia de calor infernal o Homem pediu para a filha buscar água, ele estava morrendo de sede. Atrevida a Modernidade respondeu:

– Busque você, que eu estou ocupada.

O Homem ficou vermelho de raiva e pensou em ameaçar a filha, mas ele já tinha que olhar para cima para falar com ela. A danada tinha crescido e ainda fazia Jiu-jitsu duas vezes por semana… Idade Média, a filha do meio, estava agora morando numa república, mas antes de se despedir do pai, olhou para a irmã, que castigava um saco de areia no jardim e disse debochada ao velho:

– Quem pariu Matheus que o embale!

Como a Idade Média fazia falta!, pensou o Homem, era tão baixinha…

Resolveu mudar de tática e arriscou:

– Não posso, filha. Minha perna direita está paralisada, não posso sair por aí feito um Saci. Vai que eu escorrego! E, e… eu sou desajeitado! Nasci assim, pronto falei!

Modernidade revirou os olhos e com desprezo respondeu:

– Pegue a mãe e use como muleta!

E foi o Homem, para não perder a moral, e botou a Mulher debaixo do braço, se apoiando nela até alcançar a geladeira. E no caminho percebeu o Homem como a Mulher era cheirosa, como a Mulher era jeitosa como muleta, e como o seu ombrinho delicado se encaixava tão bem no seu sovaco de Homem iluminista…

 

Tríptico

Um dia, uma mulher de bem
e uma mulher do mal
(que nada mais é que
uma mulher emancipada)
encontraram uma puta
Assim, em plena luz do dia
E se entreolharam sem conseguir compreender
como poderia uma mulher com o sexo
ganhar, não a morte, mas sim, a vida?

Erupta

Quando a mulher era uma ilha vulcânica
ela abria as pernas e sua vulva
relaxada exalava magma

O homem era um náufrago perdido nas águas

Pelas ondas arrojado,
o homem escalou os dois montes-seios
Estupefato provou do leite salino que deles saíam
Do alto da montanha
viu o homem que a mulher não estava só:
Era um arquipélago

E o homem temeu a cordilheira superfície da mulher.

Analogia

Gilberto sonhou
Que a senzala
Látego latente e latejante
Adentrava litigiosamente a casa-grande
Sem afeição alguma
Sem teta de ama de leite
Sem histórias de preta velha
Sem esperanças de concubinato
E alforrias
Sem capitão do mato
Para prender esse negro safado
Que botou o senhor de quatro
E besuntando o membro ardente de banha de cheiro
O fez engolir gota por gota
Essa mentira violenta
De democracia racial.