Poesia

Capítulo XIII

Quando eu era menina
Falava como menina
Sentia como menina
E também falava como menino
Discorria enquanto menina
Discordava das outras
E dos meninos

Mas logo que cheguei a ser mulher
Acabei com as coisas de menina
E de menino
Porque agora me vejo pelo espelho
E me permaneço enigma
Já não me vejo:
Face a face
Conheço-me em partes
Conheço-me como sou conhecida

Agora permanece sobre mim a Fé
Desesperança minha
Desigualdade

Será maior que elas,
o Amor?

Quando eu era menina
Falava como menina
Sentia como menina
Mas logo que cheguei a ser mulher…

 

©Aline Djokic, 2017

Poesia

A redoma

A redoma que me protegia não era de vidro
Era de carne
Escura
E viva
Ainda…

As balas não eram de borracha
As dores não alcançavam plasticidade sináptica
Mas retornavam os corpos plastificados
Como produto fabricado em massa
Pelo… (CENSURADO)

A minha redoma não se quebra
A minha redoma se curva com o peso
Dos caixões à caminho dos cemitérios

A minha redoma foi arrastada
Pendurada numa viatura
Frase que parece passiva
Por não poder-se nomear o agente
Ou por se reconhecer a nulidade desse ato

A minha redoma enverga-se
Grita, levanta, marcha
A minha redoma está cansada
E é escura
Mas está viva
Redoma de corpos negros.

Poesia

Poe… Ética do coração revelador

Poe… Ética
Poética
Debaixo da minha pele
O coração revelador
A casa que habito
oculta cadáveres de mim mesma
Temo-me como à cena reveladora
de um conto de horror

O meu coração dispara
Desesperadamente
Revelando um ser que não se pode ocultar
A ética do descobrimento de si mesma

Poe, sinto náuseas diante dessa revelação insana
de quem sempre soube quem era
E a tua escrita me sabia ali, na sala,
coração revelador debaixo do meu assoalho
Poético.

©Aline Djokic, 2017

Poesia

Sci-Fi

Quando ela saía às ruas
Os olhares eram as luzes frias
Duma mesa imensa
Dum Instituto Médico Legal

Mãos invadiam o seu corpo:
Como você lava esse cabelo?
E de costas sobre a mesa
Ela tentava se lembrar:
Quem podia reponder a essa pergunta,
O corpo ou a mente?

Olhares-bisturis, palavras-serras
Separando, abrindo, o seu torso
Quantas vezes hoje
Lhe tinham arrancado o coração
Repousando-o na balança?

Será que eles sabiam que ela ainda estava viva?

Dois holofotes lhe cegaram os olhos
O doutor devia estar fixando o seu rosto
Pois lhe dizia:
Você é uma negrinha muito bonita.

©Aline Djokic, 2017

 

 

 

Poesia

Analogia

Gilberto sonhou
Que a senzala
Látego latente e latejante
Adentrava litigiosamente a casa-grande
Sem afeição alguma
Sem teta de ama de leite
Sem histórias de preta velha
Sem esperanças de concubinato
E alforrias
Sem capitão do mato
Para prender esse negro safado
Que botou o senhor de quatro
E bezuntando o membro ardente de banha de cheiro
O fez engolir gota por gota
Essa mentira violenta
De democracia racial.

©Aline Djokic, 2017

Poesia

O animal racional

O animal racional me encontrou nas ruas
Me olhou, pensou, logo existiu
Chegando à conclusão de que a minha existência era nula

Mediu-me de cabo a rabo
E concluiu que eu era mais rabo que caput
Que eu não caibo
Que não sou ratio

O animal racional
Diz que quer me ver
Mas só na cama
Escreve o meu nome
No lodo, na lama
Onde a água pútrida
O vem apagar

O animal racional,
Ele não me ama
O amor, ele diz,
É coisa de louca, mucama
(Coisa de gente não-sólida
E que se desfaz no ar)
Que vive de réstia,
No limbo,
A vagar.

©Aline Djokic, 2017