Histórias de acordar, Poesia

A Bela e a Fera

A Bela e a Fera. No espelho. Ela. A Bela e a Fera cobrindo aquela que era ela, a Bela. A Bela habitando a pele que era Fera. O seu Corpo-Fera. Trincado de estrias, coberto de pelos, que arrancava e renasciam, cobrindo o que era e que ela sabia que existia debaixo daquela Fera. Debaixo daquela cor marrom, debaixo daquele corpo disforme havia ela e ela sabia que era Bela. Mas aquelas mulheres lhe diziam: você já é Bela, você já é Bela! Néscias! Néscias! Quem eram elas? Quem eram elas? Não eram elas quem vivia debaixo daquela Fera. Não eram elas quem tinha que fechar os olhos para se lembrar de que era Bela. Era ela, a Bela, de quem esperavam que amasse a Fera. E ela amava… ela sabia que a Fera também era ela! Somente a Bela sabia quem por baixo da Fera era. Era por baixo da Fera que se escondia a Bela. E um dia, ou o amor bastava para as duas, para a Bela e para a Fera, ou a Fera seria Bela, ainda que Bela tivesse que fechar cada estria da Fera com pontos. Ainda que somente mais pontos lhe trouxessem curvas definidas. E a morte telógena e eterna a livrasse de vez daquela imagem terrível. Da imagem dela. No espelho. A Bela na Fera. A Fera e a Bela.

©Aline Djokic, 2017

Histórias de acordar, Proseando

A Mulher come do fruto da árvore da sabedoria

E a serpente, a mais astuta das criações disse à mulher: Mas não é assim que Deus disse: Comereis de toda árvore do jardim?

E a mulher disse à serpente: Podemos comer dos frutos de todas as árvores do jardim, mas do fruto da árvore que se encontra no meio do jardim, disse Deus que não comêssemos, nem mesmo tocássemos, para que não morramos.

Então disse a serpente à mulher: Pois eu lhe digo que não morrereis. E digo mais, Deus sabe que no dia em que comerdes do fruto se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal e somente por isso ele disse para não comerdes.

A mulher ponderou o que dissera a serpente e chegou à conclusão de que a árvore seria boa para aumentar seu entendimento, além disso, os frutos eram suculentos e ela estava com fome. A mulher comeu do fruto saciando-se, mas não o deu a seu marido, muito menos contou a ele o que tinha dito a serpente.

Com os olhos bem abertos ela esperou que Deus, como sempre fazia, viesse passear no jardim pela viração do dia. Mas Deus não veio e Adão desesperado procurava pelo Senhor Deus entre as árvores do jardim chamando:

„Deus, Deus, onde estais?“

Curta & Glossa, Histórias de acordar, Proseando

Como podar uma mulher

Na poda, o mais importante é sempre onde e não quando fazê-la. A poda pode ser feita sempre, em qualquer época do ano e da vida.
Ela deve ser feita preferencialmente por um homem, mas na falta de um, uma mulher poderá substitui-lo (quase) perfeitamente.
Porém é imprescindível que sejam sempre podadas as partes exteriores de uma mulher, permitindo-se, em casos especiais, a poda dos sonhos.
Cuide do seu jardim. A mulher sem poda é como e(r)va daninha no jardim do patriarcado.