Histórias de acordar, Poesia

A Bela e a Fera

A Bela e a Fera. No espelho. Ela. A Bela e a Fera cobrindo aquela que era ela, a Bela. A Bela habitando a pele que era Fera. O seu Corpo-Fera. Trincado de estrias, coberto de pelos, que arrancava e renasciam, cobrindo o que era e que ela sabia que existia debaixo daquela Fera. Debaixo daquela cor marrom, debaixo daquele corpo disforme havia ela e ela sabia que era Bela. Mas aquelas mulheres lhe diziam: você já é Bela, você já é Bela! Néscias! Néscias! Quem eram elas? Quem eram elas? Não eram elas quem vivia debaixo daquela Fera. Não eram elas quem tinha que fechar os olhos para se lembrar de que era Bela. Era ela, a Bela, de quem esperavam que amasse a Fera. E ela amava… ela sabia que a Fera também era ela! Somente a Bela sabia quem por baixo da Fera era. Era por baixo da Fera que se escondia a Bela. E um dia, ou o amor bastava para as duas, para a Bela e para a Fera, ou a Fera seria Bela, ainda que Bela tivesse que fechar cada estria da Fera com pontos. Ainda que somente mais pontos lhe trouxessem curvas definidas. E a morte telógena e eterna a livrasse de vez daquela imagem terrível. Da imagem dela. No espelho. A Bela na Fera. A Fera e a Bela.

©Aline Djokic, 2017

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