Poesia

Grávida de mim

Eu, grávida de mim
Pesada, arcada, estupefata
Grávida de mim

Contando e recontando
Os dias na cartela
Eu, grávida de mim

Procurando roupas largas
Sapatos confortáveis
Para os meus pés inchados
Para os meus pés enxadas
A cavar o buraco, a cova
Onde a gravidade me enterrava

E eu grávida
Grávida
Pesada
Grávida de mim

Sentindo e re(s)sentindo as dores do parto
No quarto
No escuro
Na noite

Só e grávida
Pesando-me
Entre uma contração e outra
Entre um e outro desejo inventado

Grávida de mim
Receando os movimentos
Receando sentir-me
Imaginando-me debaixo daquela pele
Temendo-me
A mim mesma
No meu corpo…

Grávida de mim
Eu mesma
De mim
De mim
E de mais ninguém

Sentindo as dores do parto
Tardio, dolorido
Sem anestesia
Sem mãos para eu segurar
Com medos pra me assombrar
Grávida de mim

Pari-me

Rasguei as minhas entranhas
De contrações e espasmos
Chorei, temendo-me e ansiando-me
Trouxe-me ao mundo chorando
E ao me ver, acabou-se o pranto

Eu me vi nela e ela se viu em mim
Tinha-me em meus braços
Eu, dona de mim.

 

 

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