Poesia

Entrelaçadas

Ontem, sentada frente ao espelho
Ia cuidar dos meus cabelos
Com o creme de alisamento

Abri o pote e o forte cheiro
Adentrou-me as narinas tão violento
Fazendo-me fechar os olhos
Por um momento

Abri-os novamente e ela estava lá
Sentada ao pé da cama a me mirar
Pés e mãos acorrentadas
A lágrima no rosto a brilhar

De onde vens? Sussurrei
Do outro lado do mar
O fedor aqui é tão forte
Já não posso respirar

Ontem, sentada frente ao espelho
Ia cuidar dos meus cabelos
Esperava a chapinha esquentar
Estiquei a primeira mecha
Mas, descuidada queimei a testa
Senti a pele a latejar

Fechei os olhos, contendo a dor e o ódio
E quando os abri, ela estava lá
Na bochecha uma cicatriz
Quem te fez isso? Saber eu quis

Ela levantou-se e tocou minha queimadura
Depois falou-me com ternura:
Agora a qualquer lugar onde eu for
Saberão sempre quem é meu senhor

Ontem sentada frente ao espelho
Resolvi amar os meus cabelos
Sussurrei seu nome com zelo
Esperei ela se sentar

Ela se achegou sem receio
Recostou minha cabeça em seu seio
Começou a pentear

A cada mecha, a cada trança
Uma memória, uma lembrança
Que o medo não pode apagar.

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