Poesia

Ressurreição

Aceitei a vida
A difícil tarefa de existir
A difícil tarefa de resistir
A difícil tarefa de ter que ser a si mesma

Pedi a mim que viesse
Pedi-me, a mim mesma e a mais ninguém
Pedi que me sentasse
Aquele eu morto

E ali, diante daquilo que queria ser,
Sendo eu, toquei-me
Adentrei as minhas feridas com os meus dedos
Como um Tomé
Diante do seu Deus ressuscitado

E o que eu era, calada,
Me olhava complacente
Como somente um Deus pode sê-lo

Retornei ao meu templo,
Cega,
Como somente os fiéis sabem ser.

 

Poesia

Natureza Morta

Gosto de quando me dás flores
Gosto das rosas, principalmente das vermelhas
Gosto de comtemplá-las:
Seres mortos-vivos
Ou vivos-mortos?
Estarão mortas as flores que me dás
Ou viverão ainda, desafiando a morte já induzida?

As coloco num vaso
E fico a observar o morrer lento das flores
Admirando as que se secam sem que se abram os botões

Secam sem nem ao menos apodrecerem
E eu fico confusa
Inquieta
Me toma a angústia
Porque não consigo dizer quando e se
Morrem ou vivem as flores
Que me deste.

 

Poesia

Ventre livre

Quando o ventre foi liberto
a mãe continuava cativa
O ventre da mulher negra
podia livrar-se dela
pois não habitava um corpo
habitava uma mulher negra

E essa mulher sem ventre,
essa não-mulher, tinha de noite pesadelos
Nos seus sonhos era uma cartola
donde o grande mago
tirava coelhinhos brancos

E essa mulher sem ventre,
essa não-mulher, tinha de noite pesadelos
Nos seus sonhos fugia, arcada
E por entre as pernas sangrava a semente
com a qual semeava a terra

Os filhos-filhos da mulher do ventre livre
cresciam na direção errada
E a mulher negra chorava o ventre que não tinha.

Poesia

Capítulo XIII

Quando eu era menina
Falava como menina
Sentia como menina
E também falava como menino
Discorria enquanto menina
Discordava das outras
E dos meninos

Mas logo que cheguei a ser mulher
Acabei com as coisas de menina
E de menino
Porque agora me vejo pelo espelho
E me permaneço enigma
Já não me vejo:
Face a face
Conheço-me em partes
Conheço-me como sou conhecida

Agora permanece sobre mim a Fé
Desesperança minha
Desigualdade

Será maior que elas,
o Amor?

Quando eu era menina
Falava como menina
Sentia como menina
Mas logo que cheguei a ser mulher…

 

©Aline Djokic, 2017

Poesia

A redoma

A redoma que me protegia não era de vidro
Era de carne
Escura
E viva
Ainda…

As balas não eram de borracha
As dores não alcançavam plasticidade sináptica
Mas retornavam os corpos plastificados
Como produto fabricado em massa
Pelo… (CENSURADO)

A minha redoma não se quebra
A minha redoma se curva com o peso
Dos caixões à caminho dos cemitérios

A minha redoma foi arrastada
Pendurada numa viatura
Frase que parece passiva
Por não poder-se nomear o agente
Ou por se reconhecer a nulidade desse ato

A minha redoma enverga-se
Grita, levanta, marcha
A minha redoma está cansada
E é escura
Mas está viva
Redoma de corpos negros.

Poesia

Poe… Ética do coração revelador

Poe… Ética
Poética
Debaixo da minha pele
O coração revelador
A casa que habito
oculta cadáveres de mim mesma
Temo-me como à cena reveladora
de um conto de horror

O meu coração dispara
Desesperadamente
Revelando um ser que não se pode ocultar
A ética do descobrimento de si mesma

Poe, sinto náuseas diante dessa revelação insana
de quem sempre soube quem era
E a tua escrita me sabia ali, na sala,
coração revelador debaixo do meu assoalho
Poético.

©Aline Djokic, 2017