Poesia

O animal racional

O animal racional me encontrou nas ruas
Me olhou, pensou, logo existiu
Chegando à conclusão de que a minha existência era nula

Mediu-me de cabo a rabo
E concluiu que eu era mais rabo que caput
Que eu não caibo
Que não sou ratio

O animal racional
Diz que quer me ver
Mas só na cama
Escreve o meu nome
No lodo, na lama
Onde a água pútrida
O vem apagar

O animal racional,
Ele não me ama
O amor, ele diz,
É coisa de louca, mucama
(Coisa de gente não-sólida
E que se desfaz no ar)
Que vive de réstia,
No limbo,
A vagar.

Poesia

Foi Golpe!

Golpe
Foi Golpe!
De marreta
Nela
 
Fora Golpe
De todo dia
Matando filhos
De Donas Marias
 
Tiro de Golpe
De Estado
No favelado
 
É golpe
Saindo dos corpos deles
Nas escolas
Faltam canetas
Mas não faltam tiros de escopetas
 
Chega de golpe
Fora o temer
Nas praças de um maio
Que nunca chega ao fim.
Histórias de acordar

A Bela e a Fera

A Bela e a Fera. No espelho. Ela. A Bela e a Fera cobrindo aquela que era ela, a Bela. A Bela habitando a pele que era Fera. O seu Corpo-Fera. Trincado de estrias, coberto de pelos, que arrancava e renasciam, cobrindo o que era e que ela sabia que existia debaixo daquela Fera. Debaixo daquela cor marrom, debaixo daquele corpo disforme havia ela e ela sabia que era Bela. Mas aquelas mulheres lhe diziam: você já é Bela, você já é Bela! Néscias! Néscias! Quem eram elas? Quem eram elas? Não eram elas quem vivia debaixo daquela Fera. Não eram elas quem tinha que fechar os olhos para se lembrar de que era Bela. Era ela, a Bela, de quem esperavam que amasse a Fera. E ela amava… ela sabia que a Fera também era ela! Somente a Bela sabia quem por baixo da Fera era. Era por baixo da Fera que se escondia a Bela. E um dia, ou o amor bastava para as duas, para a Bela e para a Fera, ou a Fera seria Bela, ainda que Bela tivesse que fechar cada estria da Fera com pontos. Ainda que somente mais pontos lhe trouxessem curvas definidas. E a morte telógena e eterna a livrasse de vez daquela imagem terrível. Da imagem dela. No espelho. A Bela na Fera. A Fera e a Bela.

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Autocontrole

Botox no rosto:
A cada seis meses
Depilação com cera quente:
A cada 20 dias
Retoque na raiz dos cabelos:
A cada 15 dias
Manicure:
A cada semana
Retoque da maquiagem:
De meia em meia hora
Quase não sobra tempo para controlar:
A saia
O decote
A estampa
Chamativa
O salto quebrou
Era pago à prestação
Esqueceu as chaves
Vai descer
No beco escuro

Palpitação
Palpitação
Palpitação:
A todo instante.

 

Poesia

Grávida de mim

Eu, grávida de mim
Pesada, arcada, estupefata
Grávida de mim

Contando e recontando
Os dias na cartela
Eu, grávida de mim

Procurando roupas largas
Sapatos confortáveis
Para os meus pés inchados
Para os meus pés enxadas
A cavar o buraco, a cova
Onde a gravidade me enterrava

E eu grávida
Grávida
Pesada
Grávida de mim

Sentindo e re(s)sentindo as dores do parto
No quarto
No escuro
Na noite

Só e grávida
Pesando-me
Entre uma contração e outra
Entre um e outro desejo inventado

Grávida de mim
Receando os movimentos
Receando sentir-me
Imaginando-me debaixo daquela pele
Temendo-me
A mim mesma
No meu corpo…

Grávida de mim
Eu mesma
De mim
De mim
E de mais ninguém

Sentindo as dores do parto
Tardio, dolorido
Sem anestesia
Sem mãos para eu segurar
Com medos pra me assombrar
Grávida de mim

Pari-me

Rasguei as minhas entranhas
De contrações e espasmos
Chorei, temendo-me e anseando-me
Trouxe-me ao mundo chorando
E ao me ver, acabou-se o pranto

Eu me vi nela e ela se viu em mim
Tinha-me em meus braços
Eu, dona de mim.

 

 

Poesia

Carolina Maria de Jesus

As minhas mãos estão cansadas
Calos calam a mão calejada
Ontem catei papel, não trouxe nada
Os filhos com fome, tanta desgraça

Cadê a caneta, com a qual desenho o céu
No papel de pão?
Estrelas nas palavras d’um cordel
Cordel que movimenta o meu coração selvagem
Preso na imagem daquela que não pode

Cato uma caneta, cato um papel
Com as minhas palavras desenho um novo céu

As minhas mãos conhecem a dor
O amor… conhecem tudo!
O que escrevo, o que sinto
Trago guardado nas histórias
Meu inteiro mundo

Toco-me o rosto
Lágrimas a desfazer
A mulher que eu só conheço
Que só eu sei ser.

Histórias de acordar, Proseando

A Mulher come do fruto da árvore da sabedoria

E a serpente, a mais astuta das criações disse à mulher: Mas não é assim que Deus disse: Comereis de toda árvore do jardim?

E a mulher disse à serpente: Podemos comer dos frutos de todas as árvores do jardim, mas do fruto da árvore que se encontra no meio do jardim, disse Deus que não comêssemos, nem mesmo tocássemos, para que não morramos.

Então disse a serpente à mulher: Pois eu lhe digo que não morrereis. E digo mais, Deus sabe que no dia em que comerdes do fruto se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal e somente por isso ele disse para não comerdes.

A mulher ponderou o que dissera a serpente e chegou à conclusão de que a árvore seria boa para aumentar seu entendimento, além disso, os frutos eram suculentos e ela estava com fome. A mulher comeu do fruto saciando-se, mas não o deu a seu marido, muito menos contou a ele o que tinha dito a serpente.

Com os olhos bem abertos ela esperou que Deus, como sempre fazia, viesse passear no jardim pela viração do dia. Mas Deus não veio e Adão desesperado procurava pelo Senhor Deus entre as árvores do jardim chamando:

„Deus, Deus, onde estais?“